A Arte de Sorrir em Tempestades

 

Ontem à tarde debaixo de uma chuva fina e de um arco íris distante, uma canção tocava no rádio do pensamento. Dali de onde ninguém consegue alcançar – de tão longe – a água escorreu pelas pontas dos dedos. Era a chuva que passou a percorrer por lugares intocáveis e sensíveis do meu medo.

Nada podia ser mais suave do que o líquido que antes abrigava o mundo em forma de semente, hoje revelou detalhes lentos de ser. Virei nada por alguns segundos. Estes que permitiram sentir tudo. A infância, velada de silencio e pão, veio com a luz de um fraco trovão iluminando tudo. E como velas acesas em noite sertaneja ou naquelas noites em que faltam luz, preenchi os muros de minha história como cacos que montam grandes quebra-cabeças. Aos pouquinhos, tudo foi sendo revelado como as antigas fotografias. E o vazio passou a encher o infinito com pequenos sorrisos que surgiam entre os lábios já rígidos de tanta solidão.

As bonecas, os doces, as videiras e a rua pisoteada por pequenos sapatinhos e chinelos coloriam as manhãs com promessas de vidas recheadas de amanhã. A esperança preenchia as respirações e as brincadeiras. Não havia tempo para ser triste. Ao acordar um pouco de leite, açúcar e correrias já eram o bastante para um sorriso quase eterno.A tardinha caía com o sol deitado nos braços dos rios que cercavam a varanda da casa da avó. E o resto era a humanidade, que aos poucos desnudava a vida e mostrava que tudo podia ser mais simples.

Entre os prédios de hoje e a correria sufocada que leva os homens até seus concretos, não permite mais lembrar dessas pequenas esperanças. Eram como gavetinhas da casa de boneca abrigando segredos e laços coloridos de fitas de cetim.

Só mesmo a tempestade para me abraçar desse frio que me penetrou por anos, e apagou da vida o cheirinho de café e os pães doces da minha boca.

Lá fora, o engarrafamento permitia que a vida parasse por horas a fio. E eu sem saber mais o que pensava antes de ligar o rádio me transformei em ser humano de novo. Esqueci a forma de ser dura e medrosa em meio a tantos desacertos e aprendi a transcender vazios, enchendo tudo dentro de mim de água, trovões, memória e um pouco de existência transbordando o mundo inteiro em volta

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Sobre Michelle Ferret

Escritos em dias de azuis despedaçados, frases repartidas, pedaços inteiros de mundo ...
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Uma resposta para A Arte de Sorrir em Tempestades

  1. Luciana disse:

    Tudo lindo aqui… lendo calmamente…
    Beijos

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